18 de dez de 2012




A ASCENSÃO DE UMA GUERREIRA

A luminosidade que envolvia o planeta naqueles dias que antecederam a volta de Clara ao plano espiritual oscilava tais o brilho de pós de cristais da areia da praia. Os Orixás preparavam-se para recebê-la. Oxumaré ligara as pontas de um imenso arco-íris azul e branco num pólo a outro da terra, que interligavam as cores rubras das auroras boreal e astral criando furta cores que homenageavam a todas as escolas de samba.   Sereias choravam copiosas lagrimas sobre as pedras litorâneas formando volumosas marés altas, sem que antes ocorresse a brisa amena que antecede a preamar. Fora preciso Iemanjá serenar o Mar regendo seu equilíbrio, pois parecia querer emergir o mais alto possível suas águas para alcançar Clara que volitava sorrindo e cantando; levando a crer que queria resguardá-la para si e fazê-la a mais linda sereia.
Nos terreiros, sons inaudíveis e dolentes de tambores lançavam pelos ares um pulsar compassado e dorido, tais batimentos de corações em despedida. Só Oxum e Iansã sorriam; Pois logo mais teriam nos anéis de seus dedos, a pedra mais CLARA, mais brilhante, mais diáfana de todo universo.

Mães e pais de Santo recitavam no idioma Bemba os encaminhamentos balbuciando-os com o corpo cataléptico, transfigurados, desumanizados, fitando com suas pupilas inertes e umedecidas de lagrimas vivas, o corredor de estrelas que se precipitavam sobre a terra.  As forças da natureza em vão tentavam mantê-la aqui. O curso das quedas d’águas das cachoeiras desafiava a lei da gravidade projetando-se, soerguendo-se para o alto, fundindo-se com as nuvens, mesclando os vapores brancos das águas a alma clara de CLARA.  Porém, a mística da oração dos Babalorixás os fazia vislumbrarem Ogum com sua espada quebrando as correntes materiais que prendiam a Guerreira a mundanalidade da terra, fazendo cumprir a missão pré-estabelecida.

Naquelas noites de vigília, o canto das Iaras nunca fora tão dolente e ungido pela saudade. As notas musicais destas canções eram tão concretas e palpáveis que invadiam as matas ondulando as copas das árvores, abalroando nos troncos fazendo-os vibrarem em ecos soturnos até cafurnar-se nos mistérios insondáveis das eternas noites das florestas fechadas de Oxóssi. Os acordes sofríveis vibravam encrespando angustiosamente as águas do Amazonas, que no alcançar do Oceano se propagavam até o além mar chegando às praias da mãe África, sonorizando-as com notas musicais úmidas de dor, enquanto os caboclos ribeirinhos ouvindo-as aproveitavam para compor a percussão com seus atabaques, a letra da canção carregada de lirismo das mães das águas em ritmo de cirandas nostálgicas.

Um lamento triste ecoou depois que Xangô formara um imenso coração incandescente com os raios de sua espada que alcançavam todo sistema solar saudando a volta de Clara à casa do Pai Oxalá. O rufar dos atabaques e tambores ficaram mais pungentes e logo são superados pelo som das trombetas de Arcanjos e Querubins, que a conduzem, e fazem sutilmente Clara adentrar no corredor das estrelas fazendo-a contornar levemente seu diâmetro de luz. O seu lindo olhar de lince alumiava o percurso estrelar. Seu corpo espiritual levitava ritmicamente aos acordes dos sons divinos voando triunfante sobre a morte, esbanjando seu sorriso retilíneo de jubilo intenso e claro como sua alma que rumava aos confins do sem fim.
E nós, nas noites de turbilhões de estrelas, tentamos verte. Pois os Orixás já nos confessaram que teu brilho é quem alumia todas elas.


A ASCENÇÃO DE UMA GUERREIRA   ( PARTE II )
... Fora a madrugada mais longe de um dia em que o criador recolhera os raios do sol. As últimas cintilas do corredor de estrelas que envolvera e embarcara CLARA, fundia-se ainda misteriosamente com o luar de uma lua tímida. Um universo de sentimento de perca abrangia toda a terra. Ventos corrupiana desciam de sua latitude desafiando a luz da chama mansa das velas nos altares dos santos no Congá dos terreiros. A letra inconsolável de uma melodia suave e triste de um prelúdio, sob a regência de um Sabiá insone, preconizava: “UMA LONGA CURTA VIDA PARA QUEM TANTO VIVEU”...

Na mata, ainda em êxtase, um Uirapuru, o Menestrel das Florestas, tentava libertar seu cantar. Afinal, era preciso acordar a natureza de um súbito sono letárgico, solidária talvez com a indolência extrema de Clara, compartilhando mutuamente a insensibilidade de seus sentidos pelos efeitos letais do anestésico que calara a voz de quem tanto a exaltara. A lendária ave sacode a penugem, ergue a pequenina fronte para a solidão das derradeiras estrelas matutinas que vagueiam sobre a barra da aurora, que vermelha de pêsames, tenta romper as angustiosas trevas daquela madrugada infinda. Equilibrando-se no último galho da Palmeira, fixa o brilho de suas pequenas retinas no trajeto iluminado e apresado de uma imensa ESTRELA CADENTE no seu viajar açodado e incandescente que alumiara os mares e os continentes rasgando as entranhas do infinito, partindo quem sabe para CLAREAR as noites de outro apartado céu!... E afluir nas festas celestiais, quando os astros ponteiam alucinados no firmamento, para o eco de sua voz CLARA fazer vibrarem os carrilhões de estrelas de remota galáxia.
O mar ainda envolto na parda penumbra, porém, já serenado por Iemanjá, esperava o alvorecer que se recusava a nascer. Navegava ainda na proa das ondas o soluçar das últimas preces intercessoras do povo pedindo a permanência de CLARA entre nós.

E no âmago do mar de lágrimas de nossa alma navega a deriva um oceano de interrogações:__ Em quais colinas de Oxossi se esparrama seu sorriso? Qual amanhecer de longínqua terra se reveste o seu cantar?... Acordando os Orixás, despertando as energias adormecidas no ventre de Iansã cantando cirandas de praia.
Passaram-se sete luas cheias. Subiram varias marés e a vazante de tristeza ainda inundava as tendas dos terreiros, onde os velhos Babalorixás apoiavam-se em suas bengalas seus corpos senis e sua desmedida saudade. Desabafavam aos Deuses o tamanho de seus pesares que digladiavam com a rudeza dos embates cruciantes do mundo real. O silencio ensurdecedor que incorrera sobre o intimo de suas almas revestiu sua pele negra num eterno luto. Suas áureas brancas evocam em misteriosos diálogos de linguagem intraduzível para uma esfera espiritual de seres místicos que só os vêem e os ouvem quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir. Os ruídos mundanos não os tiravam de sua bi-locação. Porém, de repente são envolvidos por um OLOR de um hálito quente de um PERFUME FEMININO a aflorar-lhes num abraço a pele escura, revitalizando seus corpos decrépitos. A sutil presença, palpitante de vida, recendia o perfume ocre da terra. O fremido e o rastro do vento provocado pelo rodar de seu vestido branco enfeitado de rosas e rendas varriam do terreiro as dores que fugiam silenciosas. Aquele instante fugaz de um beijo espiritualizava a natureza e confundia a mediunidade centenária dos Barbarolixás que se entreolham a perguntar-se, se estão a pisar no céu ou na terra. Seus corações sentiam um misto de alegria e de dor. A MORTE E A VIDA se confraternizavam naquele instante fascinante de um abraço enlaçado por dedos longos e finos enfeitados de anéis a tocá-los enternecidamente. CLARA se compadecera, quando do alto da mais alta colina de Oxossi volveu a terra seus inquietos olhos, de mirar indefinido pelo leve estrabismo, que lhes dá um ar de misteriosa e sedutora Deusa.

__ Fica iaiá entre nós, pelo menos o tempo de vida que tem uma flor!
Um sorriso “SÁBIO” do tamanho da amplidão dos mares fora a resposta. O brilho cintilante das pedras de topázio nos anéis irisava ao seu redor formando um circulo translúcido, ofuscante, de brilho mais intenso que a luz do sol, transfigurando-a... E com os lábios quase a falar refizera o percurso espiritual com a alma aspirando à eternidade. A festa nos olhos daqueles anciões naquela manhã banhada pela fragrância mística, infelizmente por ENQUANTO para nós ainda se afigura numa saudade imensa.

IRACIRAN SOARES.



BOA TERÇA FEIRA Á TODOS OS NOSSOS VISITANTES E SEGUIDORES!

BJS 

ANINHA VIEIRA E EQUIPE!

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