12 de set de 2012

TEXTO DE MEU AMIGO : JOSÉ ROBERTO


MENSAGEM PARA CLARA GUERREIRA:



José Roberto Santos Neves
neves-jose@uol.com.br

Eu tinha 11 anos quando você partiu, aos 39, no auge da carreira. Lembro bem de vê-la exuberante no
“Fantástico”, toda de branco, com seus balangandãs, a morenice à flor da pele, os cabelos cor de terra,
o sorriso aberto, “cantando o samba verdadeiro, fazendo o que mandou Mineiro”, tendo sempre ao
fundo a natureza, o mar, as rochas, as cachoeiras e árvores, tudo o que há de mais sagrado nesse
mundo.
Você que foi uma das vozes mais populares desse país, a deusa dos orixás, a mulher por quem o mar
serenou; aquela que melhor personificou o misticismo da África ao Brasil, na forma de um sincretismo
religioso que reuniu o candomblé, o espiritismo e a tradição católica, herança da sua infância na
pequena Caetanópolis. Foi a mineira, mas também a baiana, a carioca da Portela, que cantou sambas
de terreiro, sambas-enredos, baião, forró, frevo, jongo, afoxé. Sinônimo de brasilidade, de amor e
devoção à música brasileira.
Só no “Fantástico”, foram 21 clipes, exibidos entre 1974 e 1983. Um recorde. No “Globo de Ouro”, você
estava a cada semana com um novo sucesso. Foi a primeira mulher a atingir a marca de 500 mil cópias
vendidas de um único disco, de 1974, que trouxe o “Alvorecer” de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho,
derrubando assim o tabu de que as mulheres não eram grandes vendedoras de discos no Brasil. Uma
trajetória gloriosa que começou em 1942, quando “um ser de luz nasceu/numa cidade do interior/e o
menino Deus abençoou”, crescendo e tornando-se dona dos versos de um trovador que lhe deu amor e
alguns dos mais belos sambas que um criador pode oferecer a sua musa inspiradora.
Você que foi operária, tecelã, a Voz de Ouro nas rádios de BH, e que chegou ao Rio com a cara, a
coragem e o sonho de ser uma estrela, na metade dos anos 60, estreando pela Odeon em 1966 com “A
voz adorável de Clara Nunes”. Você já era uma estrela. Estrela Clara. Mas queriam transformá-la em
mais uma cantora de boleros. Então você conheceu Ataulfo Alves, disse a ele que queria cantar
sambas, e o mestre lhe deu o que seria seu primeiro sucesso, “Você passa, eu acho graça”, em parceria
com Carlos Imperial. As portas se abriram, e logo depois o destino a uniu a Adelzon Alves, que lhe
apresentou a bambas como Candeia, Nelson Cavaquinho, Cartola, Mauro Duarte, Romildo Bastos,
Toninho Nascimento, João Nogueira, Xangô da Mangueira, e a tantos outros que teriam na sua voz a
grande divulgadora de suas criações. Solidificou-se a imagem audiovisual da cantora afro-brasileira, her
deira de Carmen Miranda, seguindo a orientação de Adelzon. Vieram os sucessos, a fama, “Ê baiana”,
“Tristeza pé no chão”, "Quando vim de Minas", “Meu sapato já furou”, “Conto de areia”... Quem a via no
palco, assim, de braços abertos, com seus vestidos claros, a sorrir com esse seu cantar, tinha a
impressão de estar diante de uma entidade e, quando você entoava o “Menino Deus” (“raiou,
resplandeceu, iluminou/na barra do dia o canto do galo ecoou/ a flor se abriu/ a gota de orvalho brilhou/
quando a manhã surgiu/ nos dedos de nosso senhor”), essa força espiritual comungava numa profusão
de ritmos situada entre o sagrado e o profano.
Foi ele, quem lhe deu a mão foi Paulo César Pinheiro, com quem você se casou em 1975, e então veio
uma sequência de discos arrebatadora, com “Claridade”, “Canto das três raças”, “As forças da
natureza”, “Guerreira”. No seu canto, estava o alerta para a destruição do planeta pelos homens de mal
e o surgimento de um novo mundo, quando “uma chuva de prata do céu descer e o ar de novo vai ser
natural”; e também o soluçar de dor do índio, do negro e do branco, as três raças que ao se juntarem
deram origem ao nosso Brasil.
Não posso deixar aqui de registrar como você estava linda na capa de “Esperança” (1979), no Morro da
Saúde, rodeada de crianças, e o texto de apresentação em que destaca a fé no futuro daqueles
meninos, quando nossas favelas ainda não eram dominadas pelo tráfico: “Talvez um deles seja um líder
do povo, um homem da caridade, um libertador, um mártir talvez, talvez um músico. Nisso, a minha fé,
as minhas rezas, os meus amuletos e essa minha persistente esperança”. Depois você entrou nos anos
80 com a “Portela na avenida”, encantou-se pela “Morena de Angola”, derramou lágrimas e seguiu firmesua missão, “acendendo no coração do povo a esperança de um mundo novo e a luta para se viver em
paz”.
Sabe, Guerreira, neste domingo, quando você completaria 70 anos, estarei na sua cidade natal, onde
tudo começou. Mas confesso que fico triste e preocupado quando vejo jovens com menos de 30 anos
dizendo que desconhecem suas músicas. Ignorar seus ícones culturais é mais uma das incoerências
deste Brasil que a gente tanto ama. Mas tenho algo importante para lhe dizer: pode ter a certeza de que
“eu aqui ficarei/ por você rezarei/todas as tardes ao bater a Ave-maria”. E cuidarei da sua obra e da sua
memória para que jamais seja esquecida.
Músicas citadas neste artigo:
Mineira (João Nogueira/Paulo César Pinheiro)
Ser de luz (João Nogueira/Mauro Duarte/Paulo César Pinheiro)
Você passa, eu acho graça (Ataulfo Alves/Carlos Imperial)
Alvorecer (Dona Ivone Lara/Délcio Carvalho)
As forças da natureza (João Nogueira/Paulo César Pinheiro)
Ê baiana (Fabricio da Silva/Baianinho/Enio Santos Ribeiro/Miguel Pancrácio)
Tristeza pé no chão (Armando Fernandes "Mamão")
Quando vim de Minas (Xangô da Mangueira)
Conto de areia (Romildo Bastos/Toninho Nascimento)
Meu sapato já furou (Elton Medeiros/Mauro Duarte)
Minha missão (João Nogueira/Paulo César Pinheiro)
Que seja bem feliz (Cartola)


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