14 de jan de 2009

Mito dos ritmos afros e do sincretismo religioso na Música Popular Brasileira tem seus principais clipes reunidos em DVD

(Foto: FOLHA PRESS)


Uma reunião de 21 clipes do Fantástico sintetiza a força do canto de Clara Nunes Ela irradiava magia, como dizia uma música de Gerônimo. Com a força dos orixás de sua religiosidade, com a profundidade de sua negritude, de sua feminilidade, sua voz e de sua personalidade, Clara Nunes (1943-1983) foi uma intérprete que ajudou a ressignificar a mestiçagem brasileira. Em grande parte, graças à Rede Globo e aos clipes que eram apresentados no programa Fantástico, nos anos 70, verdadeiras mega-produções para a época. Quando assumir a negritude era uma ousadia, um ato praticamente revolucionário, antecipando as conquistas sociais e de mercado presentes nos dias de hoje. Ousadia que não faltava à guerreira mineira, que estava sempre ostentando o branco das entidades.

Gravados entre 1974 e 1983, os clipes mostram uma brasileira que pouco a pouco assume sua identidade. Se pouco antes ela era vista, em discos e shows, ao lado de gente como Paulo Gracindo e Vinicius de Moraes, vendendo uma imagem e uma sonoridade que não se lhe formariam sua marca, Clara Nunes foi gradualmente se tornando uma referência da música afro-brasileira, consolidando o mercado feminino do samba e, de certa forma, antecipando o do samba-reggae (axé music) e ainda abrindo novos horizontes para a música que se ocultava entre as veredas mineiras e as dos sertões nordestinos. Resgatados cronologicamente, com uma ou outra falha, os vídeos mostram como Clara se tornou uma das maiores representantes do canto e das tradições desta nação que ainda hoje não as respeita como merecem.De frente pro crimeRodas, rendas, batidas do povo deste lugar.

O samba que Ataulfo Alves lhe sugeriu para cantar. E que Clara já se prontificara, em 68, como conta antes do clipe de ´Você passa, eu acho graça´. Mas a coisa só mudaria de vez em 74, com o sucesso de ´Conto de Areia´, no álbum ´Alvorecer´. A música de Romildo e Toinho abre a seleção de clipes do Fantástico. De branco, colar, rendas de prata, sorriso estampado, Clara dança ao ritmo afro, ainda sem toda a desenvoltura, entre oferendas e o colorido de orixás vivos e religiosamente estáticos. “As águas de Amaralina/eram gotas de luar”...Ainda com a cabeleira escovada que marcara seus primeiros anos de carreira, a mulata mineira chega entre imagens de areia, praia, céu e pescadores para cantar, em estúdio, de branco, ´É doce morrer no mar´ (Dorival Caymmi). Está ao lado do violonista Dario Lopes, embora o som seja de orquestra de cordas e piano, a maior parte do tempo. Após falar da amizade de Ataulfo e seus conselhos, canta, de vestido longo, entre cenário com grafismos concretistas, aquela parceria do mineiro com Carlos Imperial. De microfone na mão, com elegância e discrição, Clara samba assumindo uma postura que marcaria seus clipes: encarando a câmera, “de frente pro crime”.LiberdadeDe rosa, cabelo mais loiro, samba sem microfone em “Macunaíma” (Norival Reis/David Corrêa), em um cenário com desenhos a Tarsila do Amaral. “Vou morar no infinito/e virar constelação”... Rosa amarela sobre o branco, maquiagem pesada, canta em seguida: “Iansã, cadê Ogum?/Foi pro mar!...”, encarando a câmera de vez em quando e sambando com autoridade em “A Deusa dos Orixás” (Romildo/Toinho). De Candeia, “O mar serenou” se tornou clássico na sua voz, em um clipe rápido onde, pé na areia, com o sereno batendo na câmera, a sereia canta entre pedras e sorrisos: “o frio sentiu seu calor”. A liberdade também é evocada em “Coisa da Antiga” (Wilson Moreira/Nei Lopes), com Clara de Iaiá, entre a casa grande e a senzala.Entidade nacionalEm 1977, um samba-canção marca o primeiro clipe de uma música do maridão Paulo César Pinheiro (e Maurício Tapajós), “À flor da pele”, em que, entre imagens da praia e o fundo escuro do cenário, o grupo de Clara só aparece no final. “Vou compor minha sina”... Violas, veredas, buritis, igrejas, Guimarães: “Sagarana” (João de Aquino/Paulo César Pinheiro). Pinheiro retorna em duas com João Nogueira: “Guerreira” e “Banho de Manjericão”. Na primeira, entre cachoeiras ela canta em forma de oração: “sou a tal mineira/não sou de brincadeira/não temo quebrantos/Porque eu sou guerreira/Sou a mineira guerreira/Filha de Ogum com Iansã”. No segundo, o samba de roda sai das águas de um riacho entre velas e a entidade.Em outubro de 79, nascia um clássico de Paulinho da Viola, “Na Linha do Mar”, entre o mar, as pedras, o céu e o sorriso de Clara. “Quem me vê sorrir/não há de me ver chorar”. Em agosto, Clara estivera ao lado de Adoniran Barbosa, cantando baixinho os versos finais da sua “Abrigo de Vagabundo”, e dos “floreios” de Sivuca, na mais bonita gravação de “Feira de Mangaio” (Sivuca/Glorinha Gadelha). A aproximação com o forró seria manifestada ainda em “Viola de Penedo” (Luiz Bandeira), em que o ponteado de viola voa entre o “coco em Jaboatão”. Nas duas, Clara veste amarelo e branco. Nesta, ela exibe, pela primeira vez nestes clipes, o cabelo afro com que ficou no imaginário brasileiro. O outro forró será, já em 82, “Como é grande e bonita a natureza”, também de Glorinha e Sivuca, num registro com muitas câmeras e tomadas aéreas entre as Cataratas do Iguaçu, as Sete Quedas, muitas árvores e praias.

Confirmando como Clara ficava à vontade com a nordestinidade da sanfona, da zabumba e da viola, ela aparece no lamento sertanejo “Oricuri” (João do Vale/José Cândido).“Morena de Angola” (Chico Buarque) vira sucesso em agosto de 80, com a morena mexendo seus chocalhos entre a terra, os canaviais e o céu com leveza e sensualidade, numa edição com closes ao ritmo da música que fizeram história. Na quadra da Azul e Branco, abençoando o “divino Carnaval”, Mauro Duarte, Paulo César Pinheiro e a moça de branco renovam seu canto e o samba em “Portela na Avenida”. Triunfal. A apoteose continua: “Dorival Caymmi falou pra Oxum/Com Silas tô em boa companhia” canta Clara na faixa-título de seu último disco: “Nação” (Aldir Blanc/Paulo Emílio/João Bosco) cujo clipe, com direção creditada para Eid Walesko (?), a terá radiante entre um arco de flores amarelas, vermelhas, brancas e azuis no cabelo e um vestido igualmente colorido entre um novo desfile de orixás em um cenário escuro. No fim, após um discurso sobre sua missão no mundo, entre os cartões-postais de Salvador e o bloco afro Filhos de Gandhi, “Ijexá” (Edil Pacheco), também do seu último disco, apresenta o ritmo, a tradição, que, já sem a presença da entidade mineira, renasceria no fim daquela década.




HENRIQUE NUNES


Repórter


DVDR$ 37 Clara Nunes - "Clara Nunes"Som Livre 200821 faixas


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